Desempenho e qualidade de carcaça de bovinos da raça Nelore e seus cruzamentos com as raças Aberdeen Angus e Brahman



Roberto D. Sainz (1), Cláudio U. Magnabosco (2), Fernando Manicardi (3), Camila Guedes (4), Angélica Pereira (4), Regina Margarido (5), Paulo Leme (4), Albino Luchiari Filho (4)



Introdução


A rápida expansão da pecuária brasileira dos últimos anos tem sido tema de inúmeros trabalhos e artigos nos meios de comunicação. Esta expansão deve-se muito à situação atual do comercio mundial da carne bovina, mas teria sido impossível sem o desenvolvimento concomitante de melhorias no manejo de pastagens, da nutrição animal e da base genética do rebanho nacional. Neste sentido, os programas de melhoramento genético têm contribuído de forma expressiva. Outra grande contribuição foi o cruzamento entre raças zebuínas e taurinas, o chamado cruzamento industrial, aproveitando a complementariedade entre raças e o efeito da heterose. Mais recentemente, o crescimento da raça Brahman no país oferece novas oportunidades para melhorar a produtividade e a qualidade da pecuária brasileira.

A Marca OB vem desenvolvendo há vários anos projetos de Melhoramento Genético, concentrados nas raças Nelore e Brahman, estando associada ao programa Nelore Brasil - PMGRN, desde 1998 e ao programa de melhoramento genético de zebuínos da ABCZ - PMGZ desde 1997. Neste trabalho, é apresentado um projeto de avaliação de algumas opções de produção de bovinos de corte, parte de um programa maior de avaliação de linhagens da raça Nelore. Os objetivos foram:

Utilizando o Banco de Linhagens da Marca OB - BAG_OB, foram selecionados 17 touros representativos das principais linhagens da raça Nelore. Estes touros, juntamente com dois touros da raça Aberdeen Angus (GT Encore e F Player) e um da raça Brahman (Mr V8 444/4) foram acasalados com aproximadamente 400 vacas comerciais (cara limpa) da raça Nelore por inseminação artificial. Os produtos destes acasalamentos foram criados e recriados a pasto na Fazenda Guaporé, em Pontes e Lacerda, MT e terminados em confinamento na Usina Vale do Rosário, em Orlândia, SP. Após um período de 138 dias, foram abatidos no Frigorífico Bertin, em Lins, SP. O projeto foi desenvolvido e conduzido pela Guaporé Pecuária, com participação dos autores e colaboração dos Drs. Paulo Leme e Albino Luchiari da USP - Pirassununga e Luis Artur Chardulo da UNESP - Botucatu.


Resultados


Foram produzidos 238 bezerros Nelore, 31 Angus x Nelore e 38 Brahman x Nelore. Os pesos ao desmame foram superiores em bezerros machos relativos às fêmeas (+10%), e em bezerros Brahman x Nelore (+13%) e Angus x Nelore em relação aos Nelore (+13%, Quadro 1). Estas diferenças representam um bônus de 24 kg ao desmame para os bezerros cruzados.

Os pesos ao sobreano, ajustados a uma idade média de 423 dias, foram superiores (+21%) para os bezerros filhos de touros Angus, seguidos dos filhos de Brahman (+12%), com os filhos de touros Nelore sendo inferiores aos demais (Quadro 2). Como havia de se esperar, os machos pesaram mais (+25 kg) do que as fêmeas de todos os grupos genéticos (Quadro 2). Estas diferenças em peso vivo representam um aumento de 52 kg para os Angus x Nelore e de 31 kg para os Brahman x Nelore em relação aos bezerros Nelore.



No PMGRN, as avaliações ao sobreano são feitas aos 550 dias sendo, os animais pesados e submetidos a avaliação do frame score por altura do posterior e da composição corporal por ultra-sonografia, aos 570 dias (em média). As diferenças em peso, observadas desde o desmame, persistiram, com aumentos de 64 e 39 kg dos Angus x Nelore e Brahman x Nelore, respectivamente, sobre os Nelore (Quadro 2). As áreas de olho de lombo apresentaram o mesmo padrão do peso corporal. Os cruzados taurinos x zebuínos já apresentaram maior espessura de gordura e menor altura de posterior em comparação aos zebuínos. Quanto aos ganhos de peso, tanto a pasto quanto em confinamento, estes foram superiores nos Angus x Nelore e inferiores nos Nelore, com os Brahman x Nelore sendo intermédios (Quadro 3). Esse resultado era esperado devido ao maior efeito heterótico ocorrido nos cruzamentos entre taurinos e zebuínos, o que ocorre em menor escala no cruzamento entre zebuínos.





Quanto à precocidade sexual, as circunferências escrotais (CE) aos 423 dias foram maiores (+22%) nos filhos de touros Angus (27,0 cm) em relação aos zebuínos (22 a 23 cm), os quais não diferiram entre si. Até o fim da fase de recria, foram identificadas somente 15 novilhas que já haviam demonstrado o cio, isto é, que foram marcadas pelo rufião. Estas representaram 23%, 13% e 7% das filhas de touros Angus, Brahman e Nelore, respectivamente. Não houve diferença na idade média ao primeiro cio (466 dias)



Todos os animais foram abatidos durante três dias consecutivos, com idade média de 23 meses. Continuando o padrão já observado, os maiores pesos vivos e área de olho de lombo foram encontrados nos animais Angus x Nelore, seguidos dos Brahman x Nelore e finalmente os Nelore foram mais leves. Os percentuais de rendimento de carcaça foram maiores em animais Nelore e menores em Angus x Nelore, com os Brahman x Nelore sendo intermédiários. Entretanto, não houve diferença significativa entre filhos de touros Angus e Brahman para peso de carcaça, escore de acabamento, e espessura de gordura subcutânea.


Conclusões


Considerando o ganho de peso nas fases de cria, recria e terminação, o cruzamento industrial demonstrou mais uma vez o seu potencial para aumentar a produtividade em relação aos animais Nelore. Esta resposta, em peso vivo ao abate, foi maior no cruzamento Angus x Nelore (+88 kg) de que no Brahman x Nelore (46 kg). Entretanto, os zebuínos apresentaram maior rendimento de carcaça, diminuindo a vantagem do Angus (+2.9 @) sobre o Brahman (+2.1 @). Levando em consideração a maior facilidade na utilização do touro Brahman (monta natural) em comparação ao Angus (inseminação artificial), estes resultados são altamente promissores para a adoção do Brahman como alternativa para o cruzamento industrial. Será necessário confirmar estes resultados com uma amostra maior de touros.


(1) Universidade da Califórnia, Davis - EUA e Aval Serviços Tecnológicos, Uberaba - MG;

(2) Embrapa Cerrados, Planaltina - DF;

(3) Guaporé Pecuária, Pontes e Lacerda - MT;

(4) Universidade de São Paulo, Pirassununga;

(5) Cia. Açucareira Vale do Rosário, Morro Agudo-SP;


Consulte-nos: vendas@marcaob.com.br